sábado, 15 de março de 2008

era uma vez uma vaca sem pasto.
vaca ainda?


era tudo ainda uma conversa de bar. eu entrei há alguns anos. muitos sairam, foram para outros bares ou não voltam mais.

mas eu me tornei especialista
já conhecia o jogo, podia estar em todas as posições, tinha bons comparsas, pouco dinheiro, um apreço sem explicação pelo fútil e torpe.


ela chegou dizendo que vinha de muito longe. estrábica. de tanto se perder havia feito de si um labirinto. e não podia voltar.

outro tinha no olhar uma prótese de tristeza; um sorriso encantador, e uma desilusão que lhe servia de base.

a vaca veio e pôs-se ali.
depois vieram os outros. um lustre, o jarro, a pedra.

no fim da noite, lança os dados, o último motivo que se saca do bolso
para não voltar mais
não ter mais.

no canto, a caixa tocava qualquer coisa,
DARKNESS ‘TIL DAWN
Chain smoking cigarettes
Enemies across the table


não era nada disso.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

eu sabia que queria ler nas cores do teu rosto um outro retrato meu.

haviam antes de tudo dias difíceis.
e te sussuro, inutilmente.


pois ainda que fosse um grito
há barulho demais em torno. muitas desgraças e vazios multiplicados, onde vozes mendigam atenção a sua dor.

na cena: cada um quer ser mais vítima do que o outro. em todas as vias se vêem sem saída.

E EU TÃO CANSADA.

gostaria de dizer eu sem constrangimento,encarar de frente um rosto e saber de mim como algo que pudesse ser suporte senão de uma consciência, ao menos de uma dor que não fosse fingida, mas
prefiro deitar à sarjeta. queria olhar no espelho e ver as asas e não ter que viver com o fato de que essa falta me faz voar.





passam algumas horas e chego, bêbada, a passar os olhos nas linhas que me dizem

Todo o nosso saber se reduz a isto: renunciar à nossa existência para podermos existir.

consolada pelo rabisco na tela de uma página qualquer,
volto a tv, pra ver se ainda passa Seinfield.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Não rolou.

ou talvez até demais. Ao mesmo tempo.
tudo foi tanto, e nada.

e estar vivo me constrange, apesar de ser evento único:

vivo. não há mais nada a dizer.

A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger, a dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem pois segure o desassombro da condição animal como fonte de imunidade;
para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs

ou o pior; e se um dia eu quiser ser salva?

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Não: devagar. Não diga nada, que há de me dizer?

Não durmo, e nem espero dormir.
Não fiz nada, bem sei, nem o farei.

Não basta abrir a janela. está menos explícito agora do que antes?As particularidades, múltiplas e incontáveis não deixam indícios assim reduzíveis a uma espécie de bom senso.

apetece-me a talha.

Não estou pensando em nada. Não quero as oferendas.

O resto é vida.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

a letra
viva?

a vida sufoca a letra.


Isso não parece tão vazio quando me ergo e vejo lá embaixo o furor com que a cidade se des-faz Aqui calor sufoca a letra, e o que sobra é tão menos e tão mais do que as ruínas que sustentam, indiferentes, esse pesadelo da decadência glamourosa. Por que se chega a um ponto em que a desgraça é tanta que já não há mais lágrimas, nem espaço para evasão. só há a vida, pulsante e intransponível.

Daqui,
do lugar que avisto: a escrita desapareceu. não como evento sinalizando a falta de algo que esteve aqui, um dia, e partiu.
mas como grito, que de tão alto, já não se escuta.


há de tudo, desmoronando.

porque a letra também sufoca a vida.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Saiba o que foi cortar.
Talvez houvesse sim, mais esperança, antes do tempo ir ceifando. Mas olho quase bondosa essa festa. E há nessa quina em que me encontro a mais decantada das seduções.

Ponho-me interessada a ouvir-te. Mas ouço apenas aquilo que não quer dizer. Lá fora, depois do silêncio que entre-corta entra-e-corta as pequenas futilidades que te sustentam, tudo é abominável.
Me refugio fora da voz. Nem antes, nem depois do tempo. Mas em sua viagem.


algumas vezes quero matar. e Mato. Porque nem sempre esquecer abastece. Os sedentos de inacessível, eu e você, não ela, têm no sorriso desdenhoso esse anseio da morte, de incêndio, de saque, de arrancar e estilhaçar essas impressões fugidias, nascidas do olhar e do gesto calculado, as quais os camponeses chamam como amor.
Os caçadores de poesia São trágicos e épicos. Se apossam das fendas e bordas como Destino.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Estávamos quase esquecidos. Amontoados e escondidos entre pilhas de papéis e um resto de umidade. Puro mofo.

Estávamos, porém, quase esquecidos, porque de uma história sempre nasce um gêmeo, uma parte, um excesso que se intitula, num átimo de não sei o quê, a história, o original. Puro esquecimento, quase.

A história começou de uma outra que, por sua vez, não começou de nenhuma das duas anteriores, embora com elas formasse história. A minha lembrança.

Não posso dizer que há uma mensagem por aí. Nas garrafas não encontro as suas boas novas. Simplesmente me divertem. Um sorriso, assim.

As histórias são planas, infinitamente azuis: linhas de um segredo por vir, a quase lembrar que o esquecimento pode ser tão belo quanto as quase lembranças.

Decifre-me devagar, não mais tenho pressa.